Relacionamentos

Capítulo 4 – E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?

Photo by Sharon McCutcheon on Unsplash

Há poucos anos atrás, tudo era diferente. Casais se conheciam nas praças, eram apresentados pelos amigos ou então flertavam por olhares e sorrisos. Em 2021 temos aplicativos para relacionamento entre solteiros, entre casados, gays, relacionamentos sem sexo e até não relacionamentos. Com a tecnologia, camadas sociais que antes viviam escondidas vieram à tona. Antes não era tão comum encontrar pessoas com os mesmos fetiches ou você não tinha certeza se o alvo da sua paquera curtia meninas. Em 2021, com poucos cliques podemos saber tudo sobre uma pessoa, de signo, cor preferida até preferências sexuais. Exposição social além do normal? Também, mas assim como tudo, as formas de amar ( e de ser amado) evoluíram com o tempo.

Ontem estava sentado na poltrona de casa pensando em relacionamentos e no início desse texto. Estavam passando alguns programas na televisão e parei num reality chamado “90 Dias Para Casar” do canal Discovery. A temática do programa era bem diferente do que eu estava acostumado (e me intrigam coisas diferentes) mostrando casais que se conheceram pela internet. O programa mostrava casais que se relacionavam pela internet, muitas vezes por anos e seus momentos finais antes da cerimônia de casamento.

Eu já havia assistido a versão que juntava casais aleatórios e oferecia a oportunidade de se casarem com desconhecidos (Casamento à Primeira Vista, do canal Lifetime). Também esbarrei com uma versão onde eles se comunicavam através de uma parede e caixas de som e decidiam se gostariam de casar com a pessoa ( Casamento às Cegas, da Netflix). Ok, para você esses podem não ser os melhores programas , mas eles viraram febre e conquistaram muita gente.

O amor evoluiu, e está tudo bem

A ascensão desse tipo de reality show mostra que, por mais curioso e diferente que pareça, a sociedade vem aceitando “novas formas” não apenas de amar, mas também de como expressar esse amor. Vinte anos atrás, você tinha que pedir a um amigo para te apresentar a alguém, ou então tentar conversar com qualquer pessoa que te desse atenção. Hoje, graças a tecnologia, com alguns cliques você consegue uma pessoa exatamente como deseja, com os mesmos gostos (ou não) e ainda reduzir as chances de surpresa.

Claro, esse imediatismo todo cobra um preço, e o relacionamento também acaba sendo consumido no formato fast food: sabendo tudo sobre a pessoa você perde a chance de se surpreender, de se encantar com pequenas descobertas e tudo acaba ficando muito superficial. Por outro lado, pessoas extremamente tímidas podem se comunicar e vencer em etapas a timidez. A objetividade de algumas relações é benéfica, sem tanto papo desnecessário.

Existem redes sociais e aplicativos para relacionamentos específicos para gays (Grindr) e lésbicas (Wapa), ménage (3nder) fetiches (FET), pessoas que não se interessam por sexo (ACEapp), e até pessoas que priorizam o romance ao invés do sexo. Todas essas novidades tecnológicas trouxeram mais visibilidade para pessoas que antes não possuíam voz ou não se sentiam incluídas. Com a popularização de vídeos temos profissionais de ginecologia, urologia e terapeutas sexuais tirando dúvidas, pessoas mais tímidas ou inseguras com o corpo ou idade se conectando e marcando encontros, temos pessoas descobrindo o relacionamento aberto e que ter filhos não é mais uma imposição social tão forte. Talvez a minha forma preferida e a sua de conhecer pessoas ainda seja a moda antiga, esbarrando na rua, mas negar o efeito Tinder é negar as novas formas de se conectar a possibilidades.

Fico pensando se a pessoa que criou a música (em 1990) que possui o mesmo nome que o título do texto e sonhava com milhões de amigos, irmãos e irmãs ficaria contente com as redes sociais e a forma como os relacionamentos evoluíram. E por mais que alguns (na verdade muitos) achem o excesso uma objetificação, temos milhares de sites e aplicativos de encontros pelo mundo todo, fazendo sucesso e renda.

Gostando ou não, o amor evoluiu e provavelmente os mais jovens achem muito mais fácil e prático hoje, onde com um clique você sabe tudo sobre a pessoa, com outro você se declara e envia flores virtuais. Na outra ponta, casais se falam todos os dias e compartilham sua rotina, avôs conhecem seus netos ainda no hospital através de videochamadas (a tecnologia facilitou a vida de todos os tipos de amores) e um pai pode ouvir o coração do seu filho na consulta que não pode ir. Se, como diz a música te ver é uma necessidade a rede social não ajudaria?

Muitas pessoas em pleno século 21 só “aceitam” o amor da forma como conheceram, a que chamam de tradicional, muitas vezes imposta pela religião ou costumes de gerações passadas. Repare que para aceitar algo, é necessário que você seja um participante. Caso contrário, aceitar algo que não lhe diz respeito soa bem estranho. Bom, gostando ou não se tornou mais comum falar sobre poliamor, sobre swing, sobre fetiches e sobre como aceitando ou não, essas relações amorosas acontecem no mundo o tempo todo. Pode ser uma tentativa moralista de controle, pode ser a imposição de dogmas, a tentativa de preservar uma cultura mais antiquada, ou alguma outra explicação. Mas de forma alguma deve ser ignorado o fato de que uma única forma de amar (seja ela a monogamia ou não) não consegue atender às vontades de bilhões de pessoas ao redor do mundo.

O mundo expandiu, as pessoas mudaram, novas linguagens foram criadas, novas tribos, novos hábitos, a forma de seduzir hoje não é mais como antigamente. A pornografia que antes era a vilã de muitos relacionamentos, se tornou terapia para a criatividade sexual do casal. As relações também seguiram as tendências, as feiras eróticas recebem mais casais do que solteiros, e um filme brasileiro sobre a dona de um sex shop ultrapassou 3 milhões de espectadores. Os brinquedos eróticos que antes eram motivos de piadas, se tornaram artigos de luxo, alguns de ouro e diamantes. O amor pelas pessoas, seja ele romântico, sexual, admirador ou não, ultrapassou as fronteiras físicas, e ganhou o mundo, e está tudo bem com isso.

Podemos fechar os olhos ao amor “diferente” e achar que a nossa forma de amar (seja ela a monogamia, poligamia, ou qualquer outra) é a única correta . Talvez sustentar um casamento apenas por comodismo, pelos filhos, por vergonha ou ficar a vida inteira sem amor achando que é melhor ficar sozinho do que sofrer em um relacionamento. Podemos ficar para trás, mas enquanto ficamos para trás, o amor segue em frente e evolui, a gente concordando ou não.

6 replies on “Capítulo 4 – E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?”

  1. Como sempre vc escreve de forma q prende o leitor e a gente se pega rindo ” assim… do nada”! Ou melhor , ñ é ” do nada”…É da profundidade dita de forma risível e cotidiana. Excelente!

    1. Oi Ivana, obrigado pelas palavras. Estamos começando e o Google nos impões regras para ficarmos relevantes (o que tira muito da magia do texto original) nas pesquisas, mas obrigado pelo apoio e pelo elogio 🙂

  2. Gostei muito do seu texto. Acho que você tratou o tema com muito carinho. Muitas pessoas ainda tem uma grande resistência em admitir que o uso de aplicativos de relacionamento também é para quem busca um amor e não só curtição. Tem espaço para todos.

    1. Olá Lais, obrigado pelo comentário. Sim, é bem pertinente isso que você disse: há espaço para todos. É muito importante validar as novas formas de conhecer e se relacionar pois algumas pessoas só de saberem que um casal se conheceu pela internet, já “torce o nariz”.

  3. Adorei o texto e de fato você pontuou muito bem as questões que envolvem a busca pelo amor e suas diferentes formas de dizer te amo no atual contexto das redes sociais.

    1. Oi Diego, obrigado pelo comentário. De fato, as redes sociais vieram para mudar a forma como nos relacionamos, seja com amigos, família, amores e toda a sociedade.

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