Estudantes

Capítulo 7 – Segundo semestre: cupcakes e Psicologia Social

Havíamos finalizado o primeiro semestre. Provas de partes do cérebro (neuroanatomia), todo mundo se amando (início de faculdade é um amor haha) e finalmente férias. Estávamos saindo da caverna e descobrindo novas formas de saber, era maravilhoso. A faculdade fazia campanhas de marketing com parceiros, então quando eu chegava às vezes eu encontrava uma caminhonete distribuindo energético aos alunos. Eu havia me endividado porque gastei bastante comendo na cantina ao invés de trazer de casa mas também estava super animado.

Antes de entrar na faculdade eu havia recebido algumas dicas do meu psicólogo e sondado por quase seis meses. Descobri que a taxa de formatura dos estudantes de Psicologia é algo abaixo dos 2% enquanto Administração sendo o curso que mais forma, chegava perto dos 50%. Segundo ele, a turma começa cheia e no final juntam alunos variados para conseguir uma turma completa. Guarde essa informação, ela será útil nos próximos textos. Como ele havia me dito, eu identifiquei algumas tribos:

  • Os mais velhos: Como a turma de Psicologia é majoritamente do sexo feminino, esta tribo contava com algumas mulheres acima dos 40/50. Idades variadas mães e já formadas, algumas procuravam trocar de profissão enquanto outras apenas queriam melhorar o currículo. Eu me dei muito bem com elas porque elas já possuíam certa experiência e um papo mais maduro.
  • Os mais novos: Recém saídos do ensino médio, essa galera adorava a “choppada” ou alguma festa. Muito falantes, engajados e alguns até tinham turminha no maior estilo “Meninas Malvadas” (filme de 2003). Na verdade, eles reproduziam até algumas ações do filme como utilizar roupas no cor rosa durante a semana. No geral eram muito engajados, alegres e andavam em grupo. Muitos tinham energia de sobra para trabalhos em grupo e atividades, outros eram bem impacientes e adoravam um bate papo.
  • A galera “de Psi”: Esses compravam tudo relacionado a Psicologia; caneca, cantil, caneta, até jaleco e todos os livros que o professor indicava (mesmo havendo exemplares suficientes na biblioteca). Geralmente sentavam na primeira fileira e faziam todos os cursos possíveis. Eu não tinha exatamente muita proximidade com eles, então a gente não se falava tanto.

Talvez exista uma crítica por eu colocar os alunos com os quais eu estudava em “tribos” e é até sensato haver essa crítica, afinal o ser humano não deve ser resumido a rótulos ou tribos. Mas na minha visão de iniciante, existia o grupo maior e esses núcleos menores, e classificá-los ficou mais fácil pra mim. A ideia era mostrar como eu observava a interação acontecendo. Existiram outras tribos que notei (a galera com maior poder aquisitivo que ainda anda em grupos super fechados, a galera LGBTQIA+ que criou grupo de aplicativo, a galera do fundo da turma, os que não falavam quase nunca com ninguém, etc) mas preferi apenas usar esses três como exemplo.

A festa das horas complementares

Já no segundo semestre fomos agraciados com muitas atividades dadas pela faculdade, de trilhas em pontos selvagens até festa a fantasia em barzinho. Sim, tudo valendo muitas horas complementares tanto que as vagas esgotavam rápido. Nesse semestre tivemos aula de Bases Biológicas (um pouco além do neurônio) e um professor no estilo cursinho de vestibular que era muito engraçado e tirava suspiros de algumas alunas. Aliás, se você acha que a faculdade de Psicologia não terá Biologia, se engana. Você começa aprendendo como o cérebro funciona e como ele afeta todas as partes do corpo. Do frio na barriga até o AVC (acidente vascular cerebral) passando pelos rins e como os hormônios nos afetam.

A segunda matéria se chamava Avaliação Psicológica onde aprendemos sobre escalas, manuais de testes e a importância de validade e fidedignidade. Em outras palavras, escolher o teste certo para o paciente e se ele funciona. Psicólogos estudam por 5 longos anos para poder ter o direito de aplicar testes e alguns fazem pós graduação apenas para melhorar suas habilidades. Recentemente foi aprovada uma lei que permite a qualquer pessoa comprar testes psicológicos (antes só o Psicólogo podia) e aplicá-lo.

Existem muitas pessoas que não possuem o conhecimento adequado, não leram os manuais, não estudaram sobre. Por isso uma dica que eu dou, é que se você for fazer uma avaliação psicológica ou uma testagem, procure um profissional formado e experiente. Isso vai ser crucial para um diagnóstico mais preciso e consequentemente menos sofrimento e gastos.

A imagem do nosso professor ficou na minha cabeça por dois motivos: primeiro porque ele corrigia provas com um aplicativo e informava as notas na hora. E segundo porque ele morava em frente a um cemitério. Segundo ele, o local escolhido foi pelo silêncio.

A terceira matéria era sobre o desenvolvimento na vida adulta e velhice. Nossa professora ficava muito confusa e tivemos alguns problemas com ela infelizmente. A matéria falava sobre o que acontecia com o ser humano de forma biopsicossocial (no corpo, na mente e no dia a dia). Eu fiquei fascinado com essa matéria, pois pude entender melhor algumas coisas que irão acontecer comigo quando eu envelhecer. E em nenhum lugar é ensinado isso. Ninguém te ensina a envelhecer, quem dirá envelhecer com saúde, o que fazer, etc.

Foi maravilhoso para mim estudar essas questões e foi aí que eu comecei a pensar em trabalhar com idosos. Um dos exemplos que tivemos, foi que a percepção dos idosos em questão a tempo e distância diminuem. Ao atravessar a rua por exemplo, um carro vindo em uma velocidade lenta na percepção deles, pode na verdade estar vindo em alta velocidade e esse atraso na percepção pode causar um acidente fatal.

A primeira nota baixa que eu tirei

A quarta matéria era Analítica Comportamental. Nela estudamos reforço, punição e extinção de comportamentos em seres humanos e animais (dentre outras coisas). A professora foi muito gentil e teve muita paciência pois eu me atrapalhei muito nessa matéria. Sendo a aula às 7 da manhã, eu tinha que acordar 4 da manhã todos os dias e sempre me atrasava, e tinha que perguntar desde o início. Esta matéria mostrava como a análise do comportamento pode ajudar na terapia. O comportamento aqui poderia evidenciar sofrimentos ou situações que a pessoa não consegue lidar sozinha. Não é que ela ignore os pensamentos que temos, ela apenas considera que os pensamentos também fazem parte do comportamento.

A quinta matéria, UAU. Essa matéria me fez sofrer muito e me traumatizou. A Psicologia Social assim como a Psicanálise possui termos próprios. Por exemplo os termos real ou desejo em Psicanálise não possuem o mesmo significado que possuem no dicionário popular e isso me atrapalhou muito. Quando perdia uma aula perdia os termos, e na aula seguinte eu não entendia nada. Me atrapalhei tanto, que até um mapa mental eu não consegui fazer direito. Tirei uma nota vergonhosa (uma nota 3) na primeira prova e graças a um amigo, consegui recuperar na segunda. A Psicologia Social consiste em estudar o comportamento humano na sociedade. Ela nos explica como o ser humano age como ser social, em grupos, é uma matéria muito criativa e todos os países da América Latina possuem cursos maravilhosos sobre a disciplina, com uma visão muito humanizada.

Aliás, foi nessa aula que eu descobri que o comportamento do ser humano sozinho é totalmente diferente do comportamento em grupo. Se o grupo for violento por exemplo, existem grandes chances da atitude do grupo ser impressa temporariamente no indivíduo. Uma espécie de “efeito manada” toma conta e pode mudar o comportamento da pessoa. Claro, existem casos e casos e isso não justifica todos os comportamentos violentos em grupo, mas foi muito curioso aprender isso. Nossa professora era formada pela UFRJ e para quem quer seguir a área, ela era a melhor pessoa da faculdade. No fim das contas eu passei e acabei fugindo da matéria por não ser o meu interesse principal.

Sim, eu sou um ser humano, eu tiro notas baixas (poucas, mas tiro) e possuo dificuldades em algumas matérias. Ainda bem que existe a monitoria para nos ajudar, e também acabamos buscando cursos, palestras e aulas por fora para complementar o ensino. Acho que dificuldade em uma matéria não influencia na produção de um profissional bom e competente. Tanto que reconhecer que não entendi completamente aquela matéria me fez procurar saber mais e mais, para que eu pudesse entendê-la melhor.

A sexta matéria era Metodologia Científica e foi online. Foi mediana, e também muito chata. Talvez a versão presencial teria sido mais interessante. Recomendo prestar atenção para que você não tenha que pagar um curso por fora depois se quiser seguir a área. Cole no professor e nos editais que saem sempre. Eu até tentei um projeto científico mas foi um fracasso. Universidades como a UFRJ ou UERJ sempre possuem cursos na área, e também são extremamente competentes. Um amigo chegou a fazer um curso simples lá sobre Alzheimer onde você tinha contato com o cérebro de pacientes falecidos que tiveram Alzheimer, o que a maioria dos cursos não oferece.

“Duas garotas em apuros” e um hobby

Nesse meio tempo eu não levava comida de casa porque acordava cedo e comprava lanche na faculdade + almoço no trabalho. Acabei me atrapalhando financeiramente e decidi recorrer a um empréstimo estudantil. Enquanto ele não saía, eu copiei a ideia de uma séria que eu assistia. Comprei os ingredientes, peguei receitas da internet e comecei a fazer cupcakes para vender na faculdade. Com cara, coragem e zero experiência em confeitaria, venderam bem na época e eu recebi apoio de muita gente no trabalho e na turma. Fazer cupcakes acabou virando um hobby quando o financiamento saiu e ocasionalmente eu faço apenas para amigos próximos.

Esse segundo semestre foi marcado por muito apoio, éramos muito unidos e animados. Infelizmente alguns alunos foram desistindo e logo tínhamos apenas metade da turma. Notamos que muitos realmente entraram na faculdade para que pudessem tratar o seu próprio transtorno. Caso você não tenha certeza dos motivos que te levaram à graduação, você pode iniciar a psicoterapia junto com a graduação. Dessa forma você pode explorar melhor as suas razões e consequentemente lidar com isso. Durante algumas aulas e palestras presenciamos pessoas que tiveram crises, que se retiraram das aulas e até algumas pessoas que não retornaram mais após uma determinada aula. Eu já havia sido avisado que isso poderia acontecer, mas quando aconteceu foi muito chocante. Nos textos a seguir contarei sobre uma aula que mexeu comigo e infelizmente foi a minha vez de me recusar a assisti-la.

Fazer Psicologia tem muito a ver com cuidar de si primeiro fazendo terapia, para depois cuidar do outro. Você não pode advogar sobre os benefícios da terapia se você não os experimentou. De uma forma teórica você pode, mas como profissional é altamente recomendado inclusive por todos os nossos professores. Você não apenas entende mais sobre si, você também se coloca no lugar do seu paciente. passa por algumas de suas dúvidas, angústias, medos e questionamentos. A psicoterapia pode ser um pouco intimidadora para quem não a conhece ou entende bem, e ter essa experiência do outro lado ajuda muito. Claro, existem outras opções de carreira além da clínica como psicologia jurídica, avaliação psicológica, recursos humanos onde não se torna tão urgente essa necessidade profissional.

Mas para se descobrir como ser humano, eu altamente recomendo!! Ela me ajudou antes da faculdade e a lidar com essas questões quando apareceram. O segundo semestre foi muito divertido mas também tivemos muitas desistências. Acho que todos os cursos passam por isso infelizmente. Espero que você volte para ler o quão interessante foi o terceiro semestre e como às vezes se afastar de algumas pessoas pode te dar um fôlego.

Um grande abraço e nos vemos em breve.

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