Comportamento

Capítulo 3 – A Psicologia nas redes sociais.

Você já passou por isso? Por favor, não diga que acontece só comigo. Você passa por uma postagem na rede social dizendo que se você resolver aquele teste, seu QI será maior que o de algum famoso. Ou então que a Psicologia diz que ficar longe das pessoas é sinal de inteligência. Sem estudos, sem fontes, sem seriedade alguma. Você passa adiante sem acreditar, mas muitas pessoas acreditam naquilo. E daí, sem saberem o que é a psicologia ou o que ela faz, acreditam nas postagens sem fonte, nas postagens com exageros e por fim, em postagens absurdas. Assim como é o nosso papel ter senso crítico na hora de decidir o que ler e quem seguir, também deveria ser papel de, influenciadores e páginas trazer conteúdo que tenha compromisso científico, mas nem sempre é assim, afinal verdade e ciência não dão tantos likes.

Uma vez um conhecido criou uma página de apoio ao Setembro Amarelo, data escolhida em que chamamos atenção para o assunto suicídio. Ele criou uma página de apoio a pessoas que pensavam em suicídio e disse que tinha uma equipe para dar apoio e acolhimento. Quando fui questionar, descobri que os responsáveis pelo acolhimento eram adolescentes entre 14 e 16 anos e que a ajuda era apenas conversar. Eles tinham boas intenções, mas não tinham uma equipe, um profissional de Psicologia ou Psiquiatria. Não indicavam profissionais, serviços públicos de saúde e ainda utilizavam os próprios celulares para contato. A página cresceu, ficou famosa e faz muitas postagens sobre Setembro Amarelo, porém nada além de frases motivadoras. Perdemos contato e não sei mais se o “serviço de acolhimento” está disponível ou se desistiram. Isso foi há 3 anos atrás. Você já fez algumas perguntas sobre as páginas que você segue?

  • Quem são os responsáveis e qual a formação deles?
  • Eles postam coisas imprecisas apenas para terem curtidas?
  • A página remove o conteúdo falso após serem alertados? isso é o que uma página séria faz.
  • Eles postam coisas além de frases com fundo bonito? Utilizam livros e técnicas que não são de sua área?
  • Postam coisas absurdas que você não se identifica?

Uma pessoa pode ler dois livros, ver técnicas no Youtube e se passar por um profissional de Psicologia. Na verdade é até uma prática comum. Em grupos de aplicativos pessoas trocam testes, técnicas e compartilham vídeos para depois criarem perfis e venderem fragmentos do trabalho de um profissional de Psicologia. Também temos profissionais que se posicionam a favor de práticas com pouca ou nenhuma validade científica o que não é incomum. Esses profissionais vendem apenas uma ideia de bem estar, o que faz o paciente achar que todo o seu diagnóstico, tratamento e sua vida dependem de positividade. Sua saúde física e mental precisam de profissionais sérios, com formação, experiência e que ofereçam um serviço legítimo.

Psicologia é ciência?

Em poucas palavras, a Psicologia é uma ciência. Sim, ela foi criada e testada em laboratório anos atrás. Como ciência, ela se preocupa com o rigor científico (se não há evidências de que funciona, paramos de fazer) e de tempos em tempos algumas técnicas são revisadas para garantir que ainda sejam eficazes. A utilização de cristais por exemplo, não possui comprovação científica, por isso o Conselho de Psicologia não permite que psicólogos utilizem cristais no tratamento. Sim, existem outros tipos de terapias que utilizam cristais (terapia energética, de vidas passadas, esotéricas) mas não são Psicologia.

Estudamos cinco longos anos na faculdade para aprender como funciona a mente humana, como funcionam os neurônios, os hormônios, estudamos teorias filosóficas, lemos dezenas ou centenas de livros durante a graduação para sermos bons profissionais e atuarmos com excelência. Isso não significa que todos os profissionais de Psicologia são perfeitos (existem profissionais ruins ou equivocados em qualquer profissão) mas isso nos dá uma base que vamos desenvolver depois em estágios, consultas, clínicas, hospitais e empresas.

Eu digo isso para que você leitor entenda que a Psicologia não é um estilo de vida. Você pode ler um livro e tentar aplicar as técnicas na sua vida achando que resolverá seus problemas, mas infelizmente você não pode reduzir toda uma história de avanços científicos, simpósios, congressos, o trabalho de milhões de profissionais em um livro de 300 páginas. Claro, nada impede que você aprenda mais sobre a Psicologia, mas ler um ou dois livros sobre o assunto e negar a necessidade de um profissional para acompanhar você nesse processo, pode ser desastroso e talvez trazer consequências perigosas para a sua vida.

A mesma explicação vale para perfis em redes sociais que utilizam textos aleatórios de psicologia sem embasamento para falar de auto estima, medos, suicídio, e outros. Todos os dias as redes sociais transbordam de pessoas bem intencionadas querendo falar sobre saúde mental e Psicologia, porém muitos sem formação ou embasamento. Por mais que a intenção seja boa, doenças sérias como depressão não serão curadas com meia dúzia de postagens positivas. Algumas dessas questões são muito profundas, além de variar de pessoa para pessoa, experiência para experiência, e ao invés de serem tratadas por profissionais são resumidas a Stories de Instagram. É necessário critério ao se deparar com essas publicações e lembrar sempre que não existem respostas fáceis para questões complexas. Claro, não é crime compartilhar a sua visão sobre a vida, suas experiências e exemplos de vida, porém deixando claro que você não é um profissional de Psicologia.

Se o “segredo da felicidade” fosse sorrir e pensar positivo apenas, seríamos todos felizes. Não é, mas insistir nisso vende livros e cursos. Não existem respostas fáceis para questões complexas, desconfie sempre.

A ideia aqui não é generalizar e dizer que a moça que posta sobre a importância de se amar acima de tudo está errada ou é uma charlatã. A ideia aqui é trazer uma reflexão de que ás vezes, tanto a “felicidade” como outras buscas, são consequências de um processo que leva tempo e dedicação, e não depende apenas de palavras positivas e atitude. Acreditar em respostas fáceis é perigoso, pois elas não dão conta de resolver questionamentos difíceis. E quando essas palavras fáceis não te trazem todas as respostas, vem o sofrimento, afinal você acreditou e fez tudo certo. Positividade é importante claro, mas num mundo dinâmico precisamos também de constância e de técnica.

Um exemplo de profissional que fala de assuntos variados é o médico Dráuzio Varella. Ele não é comunicador ou apresentador, mas o faz muito bem, tendo uma presença muito cativante nas telas além de ser extremamente querido pelo público brasileiro. Ele também aborda temas de saúde mental porém em sua área, claramente sem invadir a área dos psicólogos e de uma maneira fácil e didática. Muitas pessoas sem formação falam de auto ajuda sendo que a auto ajuda não é um problema, existem ótimos livros e escritores de auto ajuda. O problema é que você não pode tratar problemas graves apenas com auto ajuda.

Nas redes de apoio social do Sus por exemplo, contamos com equipes multidisciplinares para lidar com os pacientes. essas equipes podem incluir agentes de saúde, médicos, psicólogos, técnicos entre tantos criando uma rede de apoio não apenas médico como também psíquico. Psiquiatras prescrevem medicamentos, médicos checam causas e sintomas, psicólogos dão suporte e apoio psicoterápico, agentes certificam-se que o paciente terá todo o apoio para não faltar à consulta.

Apoie, dê atenção, se puder algum conforto ou acolhimento. mas também sugira que a pessoa procure um profissional, uma rede de apoio do Sus ou particular. Saúde mental é coisa séria e não deve ser tratada como um algoritmo para ganhar likes. Mas infelizmente acontece, então questione sempre e saiba a origem do que você consome. Psicologia é com psicólogo, e não com perfis levianos, frases vazias ou fotos de montanha na base da força, foco e fé.

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